terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A viúva que mora num Gaudí.


La vou eu, de novo, com outro documentário. Dessa vez é de um crítico de arte inglês que gosto bastante, famoso por seu mau humor e pela descrença diante de arte contemporânea com preços estratosféricos mas de qualidade questionável. Ele sai um pouco da crítica de arte para avaliar obras de três arquitetos: Gaudí, Speer e Rohe, numa série da BBC chamada Visions Of Space.

Robert Hughes tem aquele sotaque britânico gostoso de ouvir. Ele pronuncia todas as sílabas sem perder a impostação vocal necessária para manter a atenção diante da subjetividade do tema. Além de falar bem, admiro seu tom crítico, algumas vezes áspero, misturado com sua delicadeza ao notar belos detalhes diante de grandes realizações. É o olho bom, treinado e aliado ao conhecimento profundo do tema. Selecionei um trechinho emocionante sobre Gaudí. A importância do arquiteto é salientada em depoimentos de pessoas comuns, mas altamente privilegiadas por morarem nas obras, onde expõe seu ponto de vista e sua admiração. Imagine passar 40 anos de sua vida em La Pedrera?

Há uma costura interessante de história e narrativa de pequenos dramas que justificam a crença em algo maior. Seja na arte ou seja num ser supremo, como acreditava o católico reacionário Gaudí. Eu fiquei com vontade de voltar a Barcelona só para prestar atenção nos detalhes do teto da sala de jantar que esta viúva comenta... e de imaginar o que seria viver meu cotidiano dentro de um lugar que visitantes consideram especial, quase mágico. Dá para sentir um misto de felicidade, orgulho e vontade de viver no discurso dela. É uma das histórias mais belas que ouvi durante o final de semana. Algo belo não perde sua importância, mesmo que você praticamente viva nele. Um dia espero que estudantes de arquitetura e admiradores colham depoimentos similares usando os moradores do Copan.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Cornelia Parker e a arte de esmagar objetos.


Eu ando pensando bastante sobre arte. Sobre o valor da arte para a sociedade. Sobre a capacidade que uma obra possui de despertar algumas dúvidas, de lembrar de coisas antigas mas sobretudo de continuar um diálogo . Sim, eu compactuo com a citação de que beleza está nos olhos de quem vê. Nas experências que podem ou não ser entendidas e compartilhadas. Quanto maior for esse conjunto, mais interessante será o resultado.

Numa dessa minhas divagações assistindo documentários de arte da BBC eu reconheci uma artista chamada Cornelia Parker. Eu digo qu reencontrei porque já vi um trabalho dela em alguma das bienais, nos tempos que as bienais traziam obras de verdade e não um espaço vazio. Um comentário nada gratuito: tomara que esse ano haja um revival desse bons tempos. Esse trechinho é emocionante. Ok, pode ser pela música, pode ser pelos adjetivos que o crítico de arte coloca em sua narrativa, pode ser pelo fato do inglês dela ser perfeito. Mas eu lembro que pensei bastante nos objetos de prata suspensos numa instalação gigantesca. O efeito foi tão bom ou melhor do que quando vi a aranha da Louise Bourgeois ou a última exposição da Adriana Varejão. Para quem já conhece o trabalho de Cornelia, parece obvio e até meio petulante eu vir aqui escrever que a produção dela é significativa. Mas tomo a liberdade porque gostei muito e porque esse tipo de arte faz um bem incrível para quem vivencia.

O trecho faz parte de um documentário chamado Where is The Modern Art, que fala dos efeitos da crise financeira de 2009 sobre a produção artística.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Memorial da Vaca Louca em São Paulo.

Na verdade, não estou louco não. Elas apenas me aborrecem um pouco. As vacas dessa segunda edição da Cow Parade que invadem as ruas de São Paulo me parecem mais um atentado ao espaço público do que uma tentativa lúdica de transformar as ruas em algo melhor. Vou me explicar, com tantas palavras grandes e pomposas dá para pensar que vou escrever uma monografia chata. Mas é bem simples, dá para separar passo a passo.
1) As vacas ocupam as ruas, um espaço público.
2) As vacas são patrocinadas.
3) O espaço público é tomado por marcas oportunistas.
4) As vacas são vandalizadas de acordo com o desejo dos departamentos de marketing.

Verdade, isso me deixa triste. As tais vacas são um produto da indústria cultural e do entretenimento, mas havia algo bem menos comercial na primeira edição. Quando me deparo com a vaca da ADES ou das HAVAIANAS, fica um tom de que algo saiu errado nessa brincadeira toda. Não sou contra patrocínios, no último evento havia alguns mais tímidos. Mas aqui jaz a idéia de auto expressão artística, nem que seja num tom kitch e desinteressado. A vaca, eu falo numa visão simplista e “revoltadinha”, foi pro brejo.

Será que, já que é um evento totalmente marketeiro-publicitário, não teria sido melhor contratar as agências desses clientes para desenvolver as vaquinhas? Geneticamente e especialmente modificadas para o evento? Com sacadinhas interessantes ou talvez até uma integração multimidia - imaginem uma vaca que dispara bluethooth ou sms - talvez meu nariz não ficasse tão torcido assim.

De qualquer fcrma, ainda tem muita gente tirando fotos e gostando. Se a vida das pessoas está melhor, então pelo menos de algo isso tudo valeu. Mas que eu esperava bem mais, eu esperava. Apesar de não gostar de arte-espetáculo, a minha vaca teria um tom de Maurício Cattelan: já imagino um animal de verdade (morto e empalhado, claro) pendurado na parede. Aí sim, estamos chamando a atenção.
http://www.cowparade.com.br/

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Não vou entrar em muitos destalhes deste silêncio de quase um ano. Não tive muito tempo, não deu vontade e descobri coisas incríveis usando o Facebook. Mais ou menos tudo isso junto. O caso é que neste último final de semana fui ver “Cheri”, um filme do mesmo diretor de Ligações Perigosas.

A recriação da Belle Epoque é muito bem feita, fotografia excelente. O começo do filme me pareceu um pouco forçado demais, como se fosse Carrie Bradshaw vintage pronta para falar de Sex and The City em Paris. Mas isso pasou logo e vale pelos diálogos impertinentes entre as duas cocotes velhas que se alfinetam. Kathy Bathes e Michele Pfiffer estão muito bem, mas para essa última talvez tenha faltado um pouco de maldade, principalmente no último diálogo que reproduzo aqui. O filme vale pela estória, pela época e por estes cinco minutos finais.

Did you really think I was such a good person? If I had been a truly good person, I'd have made a man of you instead of thinking of nothing but your pleasure and my happiness. I wouldn't have kept you all to myself.

Look at me. You're right. The qualities you lack, I expect it is my fault. But 30 years of easy living does make you very vulnerable. So no, I never did talk to you about the future. Forgive me.

I loved you as if we were going to die the same day. I carried you in my heart for such a long time. I forgot you were going to have to carry your own burdens. A young wife. Perhaps even a child.

And so you're going to suffer. You're going to miss me. And you're going to have to try to find enough wisdom and tolerance not to cause suffering to others.
The thing is, now you've had a taste of youth. It's never satisfying, but you'll always want to go back for more.

You must go. I love you. But it's too late. So get dressed. And go away now.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Textos para quem fica no Carnaval.



Nestas últimas semanas recebi três textos interessantes, depois de ter escrito sobre as paixonites e as ligações perigosas. Cada um tem uma forma diferente de abordar o tema. Eu prefiro a última, que parece a mais sensata a ao mesmo tempo não-racional.

1) O último é do Luis Fernando Verissimo. Não sei dizer se é dele mesmo ou se é um desses inúmeros textos com bom humor e inteligência que rodam por aí como se fossem da autoria dele. Tem bastante esperança nesse texto, vamos colocar assim. Uma vontade de tudo de certo com ironia voltada para os céticos como eu. Imagine, não é? Mas eu gostei, é bem feito.

2) O do meio é do Neil Gaiman. Na verdade, é uma fala de uma personagem no meio de uma história em quadrinhos. Depois de tomar um fora daqueles, ela encontra uma velha conhecida e praticamente vomita tudo isso de uma vez só. Bem amargo e um pouco depressivo, é o ponto mais baixo de qualquer relacionamento. Ah, detalhe... nesse "fora" é que ela descobre a existencia de outra, que na verdade é a "oficial".

3) E tem..., Clarice Lispector. Já falei que tenho um pouco de medo e admiração por essa mulher, não é mesmo? Sempre acho que ela morreu dentro de si mesma, de tanto que fica matutando seus pensamentos mais íntimos. Aqui ela encontra um jeito próprio de pensar no que deu errado. É, de longe, o que mais gosto.

Bom e agora durma-se com esse barulho do carnaval. Eu vou embora para Pasárgada, que lá sou mesmo amigo do Rei.

Por não estarem distraídos - Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

in "Para não esquecer" - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992

Have you ever been in love? - Neil Gaiman

“Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.”

Neil Gaiman - Sandman - The Kindly Ones

Paixão - Luiz Fernando Veríssimo

Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa! Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas uma, é o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo! A "fila" anda, a coleção de "figurinhas" cresce, a conta de telefone é sempre altíssima. Mas e ai? O que isso te acrescenta? Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha: Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca logo na sua vida???

Se o tal "amor" é impontual e imprevisível que se dane! Não adianta: as pessoas são impacientes! São e sempre vão ser! Tem gente que diz que não é... "Eu não sou ansioso, as coisa s acontecem quando tem que acontecer." Mentira! Por dentro todo ser humano é igual: impaciente, sonhador, iludido... Jura de pé junto que não, mas vive sempre em busca da famosa cara metade! Pode dar o nome que quiser : amor, alma gêmea, par perfeito, aoutra metade da laranja...

No fim dá tudo no mesmo.

Pode soar brega, cafona... Mas é a realidade. Inclusive o assunto "amor" é sempre cafonérrimo. Acredito que o status de cafona surgiu porque a grande maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de viver um grande amor. Poucas pessoas experimentaram nesta vida a sensação, de sonhar acordada, de dormir do lado do telefone, de ter os olhos brilhando, de desfilar com aquele sorriso de borboleta azul estampado no rosto...

Não lembro se foi o "Wando" ou se foi o "Reginaldo Rossi" que disse em uma entrevista que se a Marisa Monte não tivesse optado pelo "Amor I love you" e que se o Caetano não tivesse dito "Tô me sentindo muito sozinho..." eles não venderiam mais nenhum disco. Não adianta, o público gosta e vibra com o "brega". Não adianta tapar o sol com a peneira. Por mais que você não admita: Você ficou triste porque o Leonardo di Caprio morreu em Titanic" e ficou feliz porque a Julia Roberts e o Richard Gere acabaram juntos em "Uma Linda Mulher". Existe pelo menos uma música sertaneja ou um "pagodinho" que te deixe com dor de cotovelo. Quando você está solteiro e vê um casal aos beijos e abraços no meio da rua você sente a maior inveja.

Você já se pegou escrevendo o seu nome e o da pessoa pelo qual você está apaixonada no espelho embaçado do banheiro, ou num pedacinho de papel. Você já se viu cantando o mantra "Toca telefone, toca" em alguma das sextas-feiras de sua vida, ou qualquer outro dia que seja. Você já enfiou os pés pelas mãos alguma vez na vida e se atirou de cabeça numa "relação" sem nem perceber que você mal conhecia a outra pessoa e que com este seu jeito de agir ela te acharia um tremendo louco. Você, assim como nos contos de fada, sonha em escutar um dia o tal "E foram felizes para sempre". Bem, preciso continuar? Ok, acho que não... Negue o quanto quiser, mas sei que já passou por isso, e se não passou, não sabe o quanto está perdendo.... "O problema de resistir a uma tentação é que você pode não ter uma segunda chance"

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Eutrotrash da melhor qualidade.

Onde foram parar essas performances ultra pops, divertidamente coloridas, sexualizadas e levemente surreais? Army Of Lovers, um grupo Sueco, fez fama na Europa nos anos 90 com direito a serem banidos da lista da MTV nos EUA. É o melhor do pior, o cafona consicente, aquele que força sabendo onde vai chegar. Ainda lembro do Jean Paul Gaultier, vestido com seu uniforme de marinheiro, falando deles num programa antigo na E! chamado... EuroTrash! Nem sei porque lembrei deles, acho que é o efeito do início do Carnaval. Let the Sunshine, babies.

Em tempo, Army of Lovers é também o nome do grupo militar da Grécia antiga formado por 150 casais gays que defendiam a cidade de Tebas. Infelizmente todos morreram numa batalha com Alexandre o Grande.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sonique - Triptyque - Modernite


Na semana passada, um amigo-redator resolveu comemorar seu aniversário num lugar que nunca tinha ouvido falar. Um tal de Sonique. Soniqué ou Sônique? Nem sabia direito. Eu estou meio desligado das coisas, mas vi que era perto de casa, na Bela Cintra, só que do outro lado da Paulista. Com boa vontade, dava até para ir a pé. Mas a boa vontade morreu logo depois das 9h00 da noite e eu fiquei de molho em casa na sexta-feira. Dei os parabéns pelo telefone.

No dia seguinte, sábado, estava a caminho do aeroporto para buscar um amigo italiano quando eu e L. Jane ficamos a pensar o que fazer para entretê-lo. Primeira vez no Brasil. Com chuva e umidade, o melhor a fazer era um lugar para jantar com ar condicionado, mas o Spot estaria super-lotado. Então, no carro, usando o WhateverBerry 3G SuperBold da Claro, vimos algumas fotos do Sonique. Fiquei bobo. Fachada brutalista, bem parecida com a Galeria Leme, A Livraria da Villa nos Jardins e a Micasa. Já me convenceu.

Duas horas depois, com o gringo-amigo-italiano de banho tomado e uma desistência (Jane foi reagrupar os lençois egípcios ou qualquer outra tarefa doméstica que me falha a memória agora), uma outra amiga passou para nos levar até o Sonique. Trânsito fechado na Bela Cintra. A dica é ir por outras ruas, entre na Consolação e vire na rua do Mestiço, é bem mais rápido. Também fila para entrar, ficamos 20 minutos esperando.Mas é legal saber que se preocupam com quem está dentro, não deixando lotar.

Valeu a espera. O ar condicionado estava ótimo e o lugar é incrível. Só vendo mesmo para sentir como ele funciona bem para um bar pré-balada. Modernoso, com soluções simples e inteligentes nas paredes e no teto. E tem umas boas comidinhas que fizeram meu amigo feliz (ele estava morrendo de fome, coitado). Eu adorei. E o público é todo mix: modernos, gays, patricias, gente bonita, celebs, ex-big brothers, trintoes, pós-adolescentes, quarentonas, solteiros, casadas, grudados, etc. Tem pra todos e a harmonia é bem interessante.

Ah, um dos proprietários que encontrei na porta de entrada falou que é Sonique (paroxítona, para quem é das regras antigas da gramática como eu). E também comentou que ainda não sabem se futuramente vão cobrar consumação mínima. Tomara que não, eu sempre acho que quanto tudo é livre é que as pessoas vão e gastam mais. Imagine se as lojas dos jardins começam a cobrar consumação mínima? hahahah ou a Cristallo, Santo Grão e Suplicy? Bar é Bar! Pronto.